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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Futebol, torcedores e seus infinitos reverberes


Uma epifania ifanto-ludopédica.

Dia desses, acredito que durante mais uma das virtuosas vitórias que executava sobre @arielgajardo no FIFA, em meios a dribles que deslocavam sua existência e balaços que rompiam com o espaço-tempo, tive um momento de extrema lucidez: não faz o menor sentido discutir futebol.
Puxa, Fernando, você deveria ser estudado, fotografado, endeusado e canonizado por tamanha sagacidade e vivacidade intelectual! Meus parabéns!
Na verdade, discutir futebol faz muito sentido. O que realmente não faz sentido é discutir futebol com estatísticas, número de títulos, eficiência em campeonatos e essas putaria de nêgo metido a sociólogo-contador.

Quando você escolheu seu time, seu discernimento futebolístico devia estar entre ZERO e o NADA. O grande estímulo deve ter vindo do seu pai, da sua mãe, do seu primo mais velho ou até mesmo da afinidade com o time mais legal do álbum do Brasileirão.


Aí quando você vê, já está na terceira série, distribuindo murro nos amiguinhos mais afeminados que falavam mal do estilo do Wilson Mano.

Disso pra você se ver na faculdade, trocando ofensas calculadas, com número de título, equações que provam que o seu majestoso é melhor e você mostra, por A + B que realmente é MUITO GÊNIO de ter chutado uma cor de camisa quando tinha 4 anos. "Isso e bosta pra mim é a mesma coisa" (frase do @lucascdebarros).

E a parte realmente incrível disso tudo é realmente torcer. Loteria pura. Existe um conto do Borges (no “Ficções”) chamado “A Loteria da Babilônia”, que foi de onde surgiu tudo isso. No início dos tempos, foi criada a Loteria, que nada mais é do que o Acaso. As coisas acontecem, por pura sorte ou azar, e todas as pessoas estão sujeitas a Ela.

E como numa disputa de pênaltis, a escolha do seu time foi loteria. A graça da coisa tá realmente em discutir, usar argumentos esdrúxulos como - Neto já substituiu Pelé;



Gralak é o verdadeiro patada atômica; certeza que o Rubinho só não ficou no Corinthians porque a família Elias já havia marcado território no time alvinegro.

Resumindo: torça pra quem quiser, mas não vamos burocratizar os argumentos. O Caio e o Cléber Machado já fazem isso muito bem, pontualmente e estruturalmente.


PS1: Qualquer pessoas que tenha trocado de time depois dos 8 anos não tem o menor direito de falar qualquer coisa sobre o assunto.

PS2: Provavelmente ele(a) será são-paulino(a).

PS3: Entenda as transferências dos times brasileiros com André Lopes, o mago do humor.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

2 anos


Era na Augusta, dia 26 de Novembro. Do Puri para algum outro lugar agradável. Nunca soube direito como lidar com esse tipo de intuição, de possível vontade de dois quererem, sabe? Enfã, descemos a Augusta e caiu o mundo em água. A única alternativa contrária ao afogamento ao lado dos adolescentes, dos travestis e das prima era uma cave
rnosa portinha do lado direito da rua, com um néon ritmado t
rovando: Vira Virou. A simpática casa de sócias do prazer, que cobrava simbólicos 5 reais de entrada, com direito a uma caipirinha de galão era irrecusável. Foi ali que ela me pegou, de um jeito bem pitoresco.

Puteiro, augusta...isso tudo dá margem pra muitas interpretações. O que importa é que eu já tinha a minha.

Ela chamava Mina e foi pra China.
Aí eu esperei. Recebi ligações de madrugada, perdeu um livro meu algum avião do mundo, recebi postais, réplica do foguete do Tin Tin e uma saudade meio estranha, que parecia incabível em um mês.

Ela voltou e foi delicioso. Tomei mordida na cara, calcanharzada na nuca, murro. Já dei xilique, ela deu umas choradas, tudo dentro da normalidade. Tive até que assinar contrato de amor profundo e eterno.

Ela foi pela primeira vez no Pacaembu e eu até experimentei scargot e vi que realmente eles não tinha gosto da parte de dentro das bexigas.

Alguns lugares e algumas paranóias depois, com um ano e quatro meses ela lembrou: “Hoje fazem 4 meses.” “SÓ QUATRO? Que doideira.” “1 ANO e quatro meses, gênio meu.”

Nunca fui bom com processos.

Apesar de ela me fazer assistir Ugly Betty, Desperat
e Housewifes, alguns trabalhos de honestidade duvidosa no Máfia Wars, Rock Of Love, School of Charm, Flavor of Love e todas os reality shows da VH1, eu disse que seria a coisa mais brega e mais clichê que aconteceria na vida dela. Deu no que deu.

Só que se agora ela quiser ir pra China, eu vou junto.

Um brinds

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Na Natureza Selvagem

Esse filme me perseguiu durante o bom tempo que ficou em cartaz . Primeiro por ser do Sean Penn, que dirigiu o sensacional e subestimado A Promessa. Segundo pela trilha feita pelo Eddie Vedder. Terceiro por ter sido lançado quase que no mesmo tempo que eu havia acabado de assistir O Homem-Urso ( documentário do Werner Herzog) e ainda estava bem impressionado com toda aquela coisa de natureza, homem, selvagem, mato e tal.


Depois de assistir, acabei relevando os dois primeiros itens (Sean Penn e Eddie Vedder) e ignorei veementemente a terceira comparação (com "O Homem-Urso"). Apesar que muito pontuado pela trilha sonora e por alguns exercícios do diretor (alguns realmente sem o menor sentido), o grande trunfo é realmente o retrato e a história de Alexander Supertramp, e a inevitabilidade de sua história ser contada por alguém.

Deveria ser admirado pela coragem, pelo ódio que nutre pelos pais (que representam tudo que é ou pode ser maior que ele) e pela humildade de transgredir tudo isso, quando perceber que a tal "verdade" tão buscada não passa de uma projeção de uma consciência mimada e que a felicidade só é genuína quando compartilhada.


É o enaltecimento de um herói deslocado com uma incrível capacidade de abstração. A sua história permite que terceiros façam o que quiserem de seu mito, colocando-o no pedestal que bem entenderem. Poderia ser um filme panfletário sobre o romantismo ingênuo, sobre neo-hippies, sobre decadência da sociedade e tantas outras coisas que a história permeia, mas não chega a explorar. Apesar do retrato caricato da família (pais centralizador e frio, mãe omissa e crianças traumatizadas), é difícil de perceber o que existe além do óbvio da relações de todos eles, incluindo o velho que quer adotá-lo, a nova mãe hippie, a menina que é o espelho da irmã e todo mundo.


Talvez o que sobre mesmo seja contemplação e ter a serenidade de discernir que isso tudo não é uma disputa.



quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Os Selvagens da Noite (The Warriors) e seus infinitos reverberes

Esse post faz parte de uma nova série: filmes obsessão. Dentre os vários filmes que eu já assisti, existem aqueles que, mesmo assistidos mais de 4 vezes, nunca perdem a graça. Cada um deles acontece numa época distinta, e dois filmes-obsessão nunca se sobrepõem. Tipo Highlander, um dá lugar ao outro.

Dessas obras, muitas vezes não reconhecidas pela sua gr
andiosidade, surgem os tais infinitos reverberes. Qualquer coisa que faça parte do universo desses filmes que seja interessante o suficiente pra ser replicado\readaptado pra algum outro lugar desse mundão de meu Deus.

O primeiro deles é o mais recente dos meus filmes obsessão: The Warriors - Os Selvagens da Noite. Assistido depois de ter jogado a melhor e mais sensacional adaptação para videogames, The Warriors é algo que não pode deixar de ser assistido, nem por cima do cadáver da sua mãe.

Pra quem não entendeu, recursos audiovis
uais neles:



Com uma trilha e fotografia absurdamente
imersivas, que só cabem única e exclusivamente nessas cenas, nessa época e nesse filme, The Warriors é perfeitamente datado. Isso, perfeitamente datado.

Nesse clima de azaração entre gangues rivai
s que se vestiam com coletes e ombreiras, fazendo questão de mostram de que época vieram, um paralelo urrou em minha cabeça: Bandas que seriam ótimos boopers.

Tirando aqueles grupos excessivamente fantasiados, galhofeiros (sem bem que o Kiss seria uma ótima) muitas das bandas que existem por aí seriam ga
ngues perfeitas, que representariam bem suas, digamos assim, motivações musicais.

Então vamos começar.

Franz Ferdinand
Quem viu o baterista de botas vermelhas tocando no Circo Voador sabe do que eles são capazes. Além das referências nas músicas “Eleanor Put Your Boots On”, “Bite Hard” e “Jacqueline” são referências (por puríssima e inadequada livre associação minha) e homenagens aos exércitos da noite. Ó só:


"Eleanor Put Your Boots On"

Eleanor put those boots back on,
Kick the heels into the Brooklyn dirt,

I know it isn't dignified to run,
But if you run,

You can run to the Coney Island roller coaster,
Ride to the highest point and leap across the f
ilthy water,
(…)

Viu?

Justice
Por motivos óbvios.



Comunidade Ninjitsu
BRINKS, mas o seu é despachante.


Eagles of Death Metal
Eles tem o melhor nome de banda, a melhor banda e a melhor música. Sairiam distribuindo riffs, guitarradas e chutes giratórios.


Arcade Fire
Só pela quantidade de membros já seria o maior exército das ruas.

Gogol Bordello
Pela pose de revolto porém festeiro, mas talvez levassem um pau de qualquer outra gangue daqui.


The Hives
Além do vocal ser igual ao Alex (Malcolm McDowell) do Laranja Mecânica , só por essa fotos deles correndo na sua direção já deveria dizer alguma coisa.
Fora que a fúria bem medida dos caras bota medo. Quem foi no Orloff Five de 2008 sabe.

Otto
Ele seria todos os mendigos que vagam pelas ruas sujas de Nova York. E não adianta colocar copinho de vinho na foto não.


Motorhead não entra porque essa disputa não é digna o bastante para o Lemmy.

De todas essas gangues listadas, acho que a única que daria algum trabalho pro The Warriors são os caras do Eagles of Death Metal. Mais pela fanfarronice de que pela paudurescência.

E pra quem quiser entender com exemplos o que são os filmes obsessão tipo Warriors, segue uma lista completamente sem critério ou pudor:

Arrebentando em Nova Iorque / Old Boy/O Lutador /A Ilha da Garganta Cortada/ O Hospedeiro/ Blade/ [REC]/ Onde Os Fracos Não Tem Vez /Snatch – Porcos e Diamantes/ Senhor dos Anéis /Matrix /Tropas Estrelares /Zoolander /Madrugada dos Mortos /Ali /Cidade de Deus /A Vida Marinha com Steve Zissou /Jurassic Park /
Evil Dead - A Morte do Demônio /Uma Noite Alucinante /O Resgate do Soldado Ryan /
Amores Brutos /Querida Wendy /A Noite dos Mortos Vivos /Amnésia /Clube Da Luta/ Gladiador /Era Uma Vez no Oeste /Fuga para Vitória /Corpo Fechado /Sinais/ Bons Companheiros /Garotos Perdidos / Os Batutinhas/ Marcas da Violência /Fale Com Ela / ...

E outros milhões, cada um em sua devida época.


PS: Encontrei essa página que mostra um fã alucinado com os atores do filme nos dias de hoje. Sensacional.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O Dia em que Fernando não foi o suficiente

Em meados de 1992, tive uma das maiores epifanias da minha mal vivida e diminuta vida:

- Mãe, vou mudar de nome. De hoje em diante quero me chamar Denver.

- Mas qual é o problema com Fernando, cria minha?

- Além de ser chamado de Felipe 12 entre 10 vezes pelo meus coleguinhas (não tinha aquilo que poderiam chamar de "personalidade marcante" no auge dos meus 7 anos), Fernando nunca foi um dinossauro.

- Olha, eu nunca vi nenhum dinossauro que se chamasse Denver...talvez só alguma stripper

- É porque você nunca assistiu Denver, o Último Dinossauro, sua retrógada ignorante.



E foi assim que eu tomei minha primeira surra de vara de araçá da minha vida.

E ele foi o meu primeiro grande ídolo. Muito trendy, usava o óculos do Kenye West há 16 anos atrás, sem precisar se atochar de distorções robóticas para parecer afinado.

Denver era um cara honesto, que procurava se divertir em cada uma de suas aventuras. Ele segurava, junto com a turma de adolescente, num bagulho azul e viajavam pra algum lugar bizarro, não lembro direito se era pelo tempo-espaço, dimensões paralelas ou qualquer coisa que o valha. O importante mesmo é que Denver foi o grande dinossauro que eu não pude ser.

Hoje, amadurecido, percebo que tentar simplificar minha personalidade em um único personagem seria insensato e reducionista. O certo seria explanar minha digníssima persona partindo dos GRANDES HERÓIS MAIS GENIAIS dos primeiros desenhos que eu lembro. Seriam eles:


Spike (Triceratops) - Extreme Dinossaurs - O especialista em artes marciais (aspiracional), armado com uma cabeça dura que conseguia abrir caminho pelas mais duras superfícies (realidade). Cuida de um jardim com muito apreço, que leva as pessoas a duvidarem de sua evidente masculinidade.



Raphael - Tartarugas Ninja — E o bad boy da galere. Um lutador de personalidade intensa (aspiracional). Pode alternar de decidido, sarcástico e espalhafatoso em menos de um nanossegundo (realidade). Perdeu o paladar quando foi desafiado por Casey Jones a comer uma pizza de wasabi (realidade).

Phantro - Thundercats - representando uma pantera negra na linhagem Thunderiana (ok, isso eu nunca quis). Panthro é o que possui a maior força física no grupo e é mestre em artes marcias, além de ser também especialista em mecânica e tecnologia avançada (aspiracional). Tem armas como os espigões que saem de uma espécie de suspensório que usa, e seu nunchaku, capaz de expelir gases de várias espécies e raios (realidade). Seu ponto fraco é o medo de morcegos. Cara, ele usa suspensórios e expele gases.



Modo - Biker Mice From Mars - O gigante gentil dos três ratos motoqueiros marcianos. Tem um braço robótico e um tapa-olho (tudo isso é aspiracional). Quando fica nervoso, seu único olho ficava vermelho e entrava numa onda de fúria insandecida, principalmente quando chamado de rato.



Então meu nome poderia ser simplesmente Denver, o tricerátops mutante alienígena motoqueiro de marte. Acho que isso definiria bem.

Mas a tentativa de mudar o nome realmente aconteceu. Já a personalidade continua de um pepino-do-mar.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Traidor do movimento

Na minha cabeça, partindo dos gostos e desgostos, grande parte das pessoas podem ser divididas em dois ou mais grupos.

Um exemplo desse maniqueísmo: pessoas que infelizmente nasceram sem paladar e acabam comendo e, principalmente, bebendo coisas dietéticas, lights e diets X e aquelas que foram abençoadas com o mínimo de discernimento papilo gustavivo e sabem que comida de verdade só se faz com leite integral, açúcar, manteiga gorda, frituras na banha de porco e Coca Cola Natural (a Vermelha), coisas realmente dignas de receberem a nomenclatura de ALIMENTO.

Mas esse tipo de divisão estapafúrdia que regia a minha vida balançou por causa de um acontecimento recente. Um dos meus maiores divisores de pessoas e maior pré-julgamento maniqueísta que eu tinha absolutamente como certo era entre pessoas que gostavam de cães e pessoas que gostavam de gatos. (ó, grande epifania, ninguém nunca tinha pensado nisso, você, o incrédulo troll irá dizer. O problema é que eu acreditava nisso de verdade).

Cães são parecidos com os seus donos. Digo cães qualquer coisa canina com mais de 40cm de comprimento. Menor que isso são apenas wannabes de cachorros que se perderam em algum lugar na linha evolutiva entre ratos do campo e aquele dinossauro que cospe veneno do Jurassic Park.

funny pictures of dogs with captions
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Alegres, brutos, dóceis, variando entre algumas outras coisas dentro de cada raça ou tipo de criação, cachorros são foda. Pelo companheirismo ou pela falta de frescura (mais uma vez, estou falando de CACHORROS, não de frufruzetes), são de uma honestidade além do concebível. Óbvio que quem fala que “cachorros são interesseiros e só se prezam por quem lhes dá comida” nunca chegou nem perto de conhecer um.

E quando o assunto eram seus arquinimigos, seus algozes, os putos dos gatos, eu metia a lenha e soltava todo tipo de asneira. Até aparecer isso:


Minha irmã, veterinária recém-formado, agora mora comigo em um novo e cada vez mais apetitoso bairro aqui de São Paulo, Pinheiros, Aquele Que Está A 20 Min De Tudo e Todos (juro, essa característica metafísica precisa ser estudado, né Fran?).

E sendo assim, ainda mais fazendo residência num hospital daqui, óbvio que logo surgiria um mascote. E pelo histórico dos Spuri, conrintianos amantes de cães que odiavam os gatos palmeirenses da vizinha, ele obviamente seria um cachorro. Doce ilusão.

Um belo fim de tarde ali no Bresser, Sr. Cabaço da Silva estava entregando cerveja pelos bares, butecos e restaurantes com seu pequeno caminhão e passou, inclusive, no bar da frente do hospital veterinário. Mas por ser um Cabaço até no nome, não percebeu que havia uma gatinha brincando com um fio da lona de seu caminhão, e saiu pela rua quando terminou sua entrega. A roda passou por cima da pata traseira da gatinha, destroçou tudo que tinha por lá e continuo as tarefas de seu dia. Alguns veterinários que estavam voltando do almoço viram a cena e a levaram rapidamente para o hospital, amputando sua pata destroçada, cheia de borracha nos ossos e completamente infeccionada.

E aí ela apareceu aqui em casa, dentro de uma caixinha, grogue, mas ainda assim muito simpática.

Descobri que toda birra com gatos sempre foi um inconcebível medo, por não fazer a menor idéia sobre o que se passa na cabeça deles (o sistema canino carinho-comida-carinho-bolinha-carinho-mordida parecia que não dava pra ser adaptado ao universo felino).

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Vou descobrindo aos poucos que miados não são de felicidade e que ronronar é bom. Aquela atitude de amassar alguma superfície fofa com ambas as patas com uma cara de satisfação plena ainda não fazem muito sentido, como algumas outras coisas. Mas ver gatos fazendo gatices é uma das coisas mais sensacionais que existem. Pelo que eu entendi, o que passa pela cabeça deles são ações, e nem um sistema linear como o dos cães. Algo como ”vou me amostrar”, “vou xeretar” ou “me deixe em paz dormindo, com leves coçadas ocasionais” parecem que resumem bem as coisas por aqui. Até tô começando a achar graça nas tirinhas do Garfield.

A gata de três pernas, apesar de se fazer pequenas mas constantes burradas e dar uma de Joana sem braço (INFÂMIA) está se adaptando muito bem aos Pinheiros imaginários de Pinheiros. Destemida e cravando as suas unhas filhasdapulta de afiadas que agora compensam o impulso perdido com a patola de trás.

Resumindo, traí o movimento dos caninos. Não sou mais um entusiasta do Canis lupus familiaris e assumo em praça pública que gatos até podem ser legais. Pronto.

Mas não venha tentar me convencer que adoçante pode ser considerado comida, aí já é demais.

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PS: Nunca achei que colocaria uma foto de gato aqui nesse blog ou em qualquer coisa que levasse meu nome, mas está mais do que provado que as coisas mudam. Resistir seria burro e felino.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Go Go Boys da Vergonha Alheia

Se tiver coragem e sensualidade correndo em suas veias, clique:

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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Cidadão de araque

O que significa ser cidadão de algum lugar? Ou melhor, o que significa ser brasileiro classe média e ter como herança cidadania européia?

O que eu mais escuto pra justificar os anos na fila de espera da cidadania, gastar fortunas, buscar documentos nos confins da Terra é simples: poder viajar pra fora sem precisar ser considerado brasileiro e, na volta, não enfrentar filas na nossa alfândega, voltando ao tupiniquismo quando for conveniente.

Isso, sem PRECISAR ser considerado brasileiro que, além de precisar de visto pra quase todos os países do mundo, ainda assim tem gigantescas chances de ser barrado no aeroporto. Pimba.
Aterrorizante.


O mínimo de crítica é necessário. Já é fodérrimo pra caraleo tentar entender o que é ser um cidadão brasileiro, ainda mais ter DUPLA cidadania. Conheço alguns ditos cidadãos ítalo-brasileiros que não são nem um, nem outro. Quão típicas são as pessoas que a afirmação da dupla nacionalidade tem o mesmo peso de um pequeno título da Coroa Brasileira? Algo como um pequeno Duque dos novos tempos, que recebe aval pra gastar mundo a fora e voltar pra cá pra sonegar a lá vontê.

Partindo da minha mera e astuta capacidade de observação, concluí que quem normalmente tem acesso à cidadania é um completo imbecil aproveitador, que ao invés de tentar realizar efetivas troca de conhecimento, entender o que deu certo por aí, voltar para o Brasil e tornar-se algo de útil, fica pagando de fino, de glamourosa-rainha-do-funk exibindo o passaporte com adesivo da Ferrari (conheci uma pessoa que fez isso).

Aquela típica pessoa que acha que quem vai pra Índia volta um ser super iluminado, entendendo tudo sobre as mais de 240 mil entidades, negando qualquer coisa que ousou conhecer sobre Tupã, São Jorge, Ronaldo (o goleiro Deus), Exu e Chico Xavier. Volta com aquela linda tatuagem do Deus da Gonorréia e acho tudo lindo. Quem viu Viagem a Djarelling pode entender melhor.
Acho que é um pouquinho mais que isso. Sem levantar bandeiras ou qualquer um daqueles símbolos estúpidos, não dá pra ser considerado luso-brasileiro, nipo-brasileiro, ítalo-brasileiro ou qualquer-brasileiro sem ter o mínimo dos dois lados.

E desses vários lados, teve um que eu conheci primeiro. Algum que os meus amigos descendentes de japas sempre me deixaram fascinado era presença efetiva do Japão nas suas casas. Tudo bem que os pais deles eram vindos diretamente de lá, que as coisas que aconteciam por lá ainda estavam mais vivas. Mas o pai de um que tinha uma plantação de shitake/shimeji (isso no meio da década de noventa, onde comida japonesa ainda era exótica), uma mãe que só falava japonês com o filho e a outra fazia bonsais como hobby, são coisas que chamaram a atenção de pra um menino que comia arroz e feijão em praticamente todas as refeições, jogava Super Nintendo, e se divertia com o Doug Funny.


Foi incrível experimentar o primeiro temaki feito pela mãe do amigo, regado à muito niguiri e aquele bolinhos de arroz-com-arroz. Isso sem falar no moti, o doce de feijão, que na época era tão estranho quando degustar um picolé de chuleta.

Isso tudo só pra ilustrar o quão longe a Itália estava pra mim na época, e o quão perto estava para os meus amigos, os descendentes dos próprios. Tudo bem que nós italianos, tão enraizados, tínhamos o gnhocci (que só ficava no ponto certo se você amasse as paradinhas com o garfo enquanto falava mal de alguém), lasanha, Adoriran Barbossa e tudo mais, mas a Itália em si era um país to distante quanto a Espanha, Portugal, Luxemburgo ou a Zona Leste.

Sendo eu descente direto de italiano, as únicas coisas que sei sobre a Bota é a sua assustadora direita, da ajuda do exército brasileiro deu na Segunda Guerra contra o Mussolini, que Calábria tem alguma coisa a ver com calabresa, o caso Battisti, os filmes do Fellini, alguma coisa de Spaghetti Western e um entendimento de orelha sobre comidas (bracciola, bruschetta, canelone, e tal).



E mesmo assim é muito mais que eu sei sobre a descendência do meu bisa negão, minha bisa portugesa ou meu avô espanhol. Talvez por conseguir o tal passaporte e por sermos grandes baba ovo ded metrópoles, a italiana seja a mais valorizada. Precisava começar por algum lugar, né.

Na real, gosto mesmo é de macarrão com feijão, que aprendi com a minha vó índia/negra do Rio Grande do Norte. Se for feijão de corda, melhor ainda.

Vou tentar fazer com que a dita “regalia” do passaporte sirva pra alguma coisa além da mera superioridade desmiolada. Pelos menos aprender alguns xingamentos e trazer pra cá, já que merda, buceta e caralho logo cairão em desuso.

PS: Este post foi patrocinado por Darcy Ribeiro e o livro O Povo Brasileiro, assim como a vontade de ser descendente direto dos Gaykurus.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Tchau tchau Vila Mariana

Depois de quase quatro anos morando na Vila Mariana, é hora de dar tchau. Algumas mudanças, macumbas, mais mudanças e incríveis reviravoltas familiares, fui obrigado a deixar de lado a mordomia do apartamento-cubículo-aconchego-próprio por um grandão, dividível e na outra extremidade da Paulista. Lá na Zona Oeste.

Vai ser foda sair da encruzilhada das linhas azuis e verdes, do terminal Ana Rosa, do Pão de Açúcar, Habib´s, chinês sujo que tem o melhor bifum Cingapura com camarões congelados do mundo, Fran´s Café no térreo e do genial Sesc Vila Mariana, aquele com formato pitoresco e programação sensacional.

O caminhão de lixo duas da manhã é a única coisa que não vai fazer a mínima falta, aquele maldito.

A quebra de conforto máximo. Das coisas jogadas pela sala, da louça preguiçosa que sabe-se lá quando será lavada, dos sapatos voadores, dos gibis voadores, de todas as coisas voadoras que sabiam o caminho de volta. De tudo aquilo que fazia um apartamento ser só, e meu. Várias vezes ficava só eu e o apê, assim numa boa, como dois amigos velhos que não precisam falar nada.Na toca do ermitão, até deixei a barba crescer pra fazer jus ao personagem.

Agora de volta à comunidade. Irmã mais velha + irmão mais novo + amiga da irmã mais velha, uma combinação digna de Steve Martin e muita confusão. Mas todos agora estão maduros, mais vividos, já moraram com amigos, sozinhos, em casas desconhecidas, tem tudo pra dar certo, né? Esperemos de sim.

Que venha Pinheiros. Espero que ele me conquiste como a Vila fez, mesmo sem faculdade, sem os três amigos logo ao lado e mesmo sem, sei lá, aquele ar poluído recebido da menor varanda do mundo direto no peito, que me fazia bem.

Então é isso né, desapego. Tchau, foi bom, valeu.

segunda-feira, 2 de março de 2009

VemVai – Caminho dos Mortos, chorocantando pelos teatros da vida

> Teatro sempre foi uma arte deveras complicada pra minha pessoa. Pra nós, pequenos ratos de cinema protegidos pela escuridão que, quando muito, partilhamos algumas lágrimas com o que se passa no recinto, essa vivacidade teatral é algo muito aterrorizante.

A interação eminente e sua efemeridade deixam aquilo que acontece no espaço cênico muito mais intenso. Um olhar, aquela pergunta direcionada ou mesmo uma puxada que te leve pro meio do palco são atitudes que certamente irão te tirar da área de conforto. E nem todo mundo gosta, né mermo?

Eu até gosto, quando me preparo físico e psicologicamente para tal. Mas nunca que ficaria pelado meio no meio do palco do Zé Celso, como acontece até com delicada freqüência.

Colocado isso, num domingo sufocante que despontava noo horizonte um insosso Corinthians X Marília, surgiu a idéia de assistir a peça sensação do ano passado: Vemvai, o Caminho dos Mortos. A direção é da Cibele Forjaz e o texto do Newton Moreno, feita pela Cia. Livre. Resumindo sem spoilear, Vemvai é:

uma reflexão sobre a morte, baseada em mitos e contos dos povos indígenas sul-americanos, como os Araweté, Parakanã, Wayãpi, Marubo, Pakaa-Nova, entre outros.(...)convida os espectadores a presenciar histórias e narrativas míticas que re-significam os vários estágios da morte: a morte ritual, a morte física e os ritos funerários. A peça recebeu os prêmios SHELL 2008 de Melhor Direção (Cibele Forjaz) e Melhor Atriz (Lúcia Romano) e o Prêmio Contigo 2007 de Melhor Dramaturgia (Newton Moreno).”

Tirando o Prêmio Contigo, tudo isso parece muito pseudo intelectual de brasileiro metido a hipponga limpo. Ledo engano.

Começa meio truncada, mas depois entra numa fluência ritmada, marcada com tambores e sons hipnóticos. A quebra dos atos, das locações e as incríveis imersões realmente parte de uma travessia maior. Surpreendente como eles conseguem lidar com cotidianos e as lendas que, se fossem contadas de outra forma não variam o menor sentido, nem como parte do todo, muito menos como fragmentos.

Algumas referências atuais, misturadas com a temática atemporal colocam essa peça num lugar extremamente peculiar de representações, que muito me agrada e sempre me deixam catatônico pela grandiosidade dos temas tratados.

E catatônico fico por um bom tempo. Achei que era mais difícil tratar a morte com curiosidade, mas depois da peça, isso que realmente parece o mais coerente. Engraçado perceber que os índios tratam a morte com mais respeito e simplicidade, e os iluministas ateus geniais e pentelhos continuam se cagando pra ela. Vai saber né, continuo achando que a melhor técnica é dar uma de PSDB e ficar em cima do muro, chegando lá a gente mostra o que sabe pra quem for e tamos aí!

E saindo do assunto morte, voltamos ao teatro. Como vou bem menos do que gostaria, assim como a grande maioria das pessoas que eu conheço, vou recomendar algumas cositas:

E duas que ainda estão e cartaz e precisam ser assistidas:

Avenida Dropsie – O meio termo entre Praça Roosevelt e Teatro Abril. Produção e direção sensacionais, e o texto é quase do Will Eisner.

Não Contém Glúteos – A melhor peça de comédia que eu já assisti. Juro, os caras são geniais e usam o espaço cênico como poucos. E ainda ouso dizer que dou tanta risada quanto assistindo à Monty Phyton (ur), Look Around You, Family Guy e Simpsons.



Duas que eu não assisti, mas recomendo mesmo assim:

Filosofia na Alcova – É Sade né, deve ter algum peitinho de bobeira por lá, mas acho que é dever cívico assistir esse tipo de montagem.

A Vaca de Nariz Sutil – Já comprei ingresso e perdi a sessão duas vezes. É a primeira montagem dramática do pessoal do Parlaptões.

Que eu me arrependo amargamente de ter perdido:

A Noite dos Palhaços Mudos – O texto era do Laerte e a peça era feita por clowns de verdade. Isso pra mim já basta, bufão miserável.

Uma que você perdeu:

Centro Nervoso – Um texto do Fernando Bonassi sobre vários tipos de dor, sem ser nem um pouco doloroso. Tem as trucagens mais incríveis e coerentes que eu já vi, sem serem espalhafatosas.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Edward Bunker, e alguns fodões que fariam belas parcerias

Tudo começou com um inocente meme que a Tay me passou há miliano pelo blog dela. É bem simples:

1. Pegar o livro mais próximo.
2. Abrir na página 161.
3. Procurar a 5ª frase completa.
4. Colocar a frase no blog.
5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro! Utilizar mesmo o livro que estiver mais próximo e seguir à risca às outras instruções.

E o livro que estava ao meu lado era: Educação de Um Bandido (autobiografia) – Edward Bunker

“O ponteiro dos segundos avançava lenta mas inexoravelmente, e os outros ponteiros se moviam com a mesma implacabilidade.”

A sorte foi esse ter sido meu livro mais próximo desde Dezembro/08. As quase 400 páginas são fluidas como romances medíocres, mas recheio é sensacional. O texto, assim como a vida de Bunker, é direta e visceral. Por mais que a frase acima não faça jus ao livro, muito menos à vida do autor, ilustra o mais presente dos sentimentos de sua saga, grande parte encarcerada.

“Edward Bunker nasceu em Hollywood em 1953 e passou dezoito anos, divididos em três períodos, encarcerado. Tinha dezessete anos quando foi para San Quentin pela primeira vez e foi o prisioneiro mais jovem a ser enviado para lá. Ele deixou a prisão definitivamente em 1975. Além de sua obra literária, Bunker também fez diversos trabalhos para o cinema, como roteirista e ator. Sua atuação mais lembrada é o personagem Mr. Blue em Cães de Aluguel (1992), de Quentin Tarantino.” Trecho retirado do site da editora Barracuda.

Aham. É, depois de ler essa petit introduction fica difícil de largar. Tudo acontece lá por aqueles lados da Califórnia, nos desertos e descampados que um maluco algum dia achou genial a idéia genial de se cavocar por lá, plantar laranja, procurar ouro, coisa e tal.

Além de fascinantes regiões desérticas, o livro alinha a história do Oeste estadunidense no decorrer do século 20 partindo da vista, em sua maior parte, de um detento. O legal é a ponte que ele conseguiu construir entre os marginalizados e os intelectuais/artista, partindo da visão muito exclusiva do verdadeiro marginal/artista. Ele é o exemplo máximo dos escritores malditos

Quando soube que o eterno Mr. Blue teve uma puta duma vida, era um baita escritor e ainda atuava fazendo o papel dele mesmo, me ganhou no ato. Quando descobri coisas ainda mais fascinantes:

Edward Bunker faz o papel de um policial no clássico de ação 90´s Tango & Cash, do efusivo Stallone e do camaleônico Kurt Russel. Entre aqueles inúmeros filmes de ação com detetives cachorro, detetive que cai o ombro, detetive que tá se aposentando, todos os tipos de detetives, esse é um dos mais legais. Se você teve infância e SBT, certeza que já assistiu comendo pipoca com Ajinomoto (ou isso era só eu?).

Saindo do devaneio noventista acima e juntando a saga de Edward Bunker com cinema mais uma vez, existe um personagem que, apesar de magistralmente interpretado por Josh Brolim, ficaria über sensacional nas mãos de Bunker: Llewelyn Moss. Um dos principais neo-cowboys do novo e instantâneo clássico “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, dos irmãos Cohen.

Apesar do personagem não ser um fora-da-lei clássico, os impulsos instantâneos que o levam a agir são os mesmo que fazem de Bunker quem ele é. São aqueles sem aparentes (veja bem, eu disse aparentes) laços afetivos que se tornam os verdadeiros e furiosos estrangeiros, que na verdade estão exilados pela vida, como Camus um dia mostrou (aliás, Bunker leu O Estrangeiro, dentre muitos outros livros, na prisão).

E descobrindo todos os exilados dos Cohen que passam por obras-primas como “O Homem que Não Estava Lá” – mais literal impossível -, “O Grande Lebowski” e tantos outros, descobri um filme escritos pelos irmão, mas dirigido pelo Sam Raimi !?

Sam Raimi fez os Homem-Aranha (e?) e os filmes de gore/terror/autoral pastelão como A Morte do Demônio, a Encarnação do Demônio 2 e Uma Noite Alucinante 3, que podem ser considerados as continuações e os nomes mais sem sentido da história do cinema. Apesar de não ter nada a ver com grandes sagas americanas, estrangeiros marginais ou ter o mínimo de critério com o início desse post, são muito legais.

Vai atrás do Crimewave, escrito pelos Cohen e dirigido pelo Raimi num longínquo 1985 e delicie-se com essa bela parceria (que eu ainda não vi). Se encontrar, me avise.