quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Acervo

Isso que vem por entrelinhas é universal. Tirando a parte sucinta, essa coisa meia- forma e vago conteúdo, o resto é de todo o mundo.

Tinha um garoto, desfeito de si, que com quatorze já sabia o que não queria. Sem política, sem letras desconexas, sem ilógicas, sem fatos marcantes e sem pessoas, principalmente sem pessoas. Sentir-se só era um dom indesejado, e sabia que se estivesse sozinho aquilo tudo que ninguém notava insistia em aparecer. O mais angustiante era a incapacidade de transmitir aquele geral enrustido pra um qualquer que fosse.

Com quinze, continuou com quatorze. Esqueceu de crescer, e então, amadureceu. Calma era alguma coisa distante, raiva era inconstante e frieza era esboço de outros que tinha vergonha de esboçar. Fez questão de fantasiar sobre o descrédito dos homens e das mulheres, pensava que a origem de tudo era o desespero. Rezou sério, uma ou duas vezes.

Depois de três anos conheceu alguém transparente e seguro, viu que a aflição era só dele. Depois de quase cinco, confirmou a teoria do desespero, e deixou de fingir que acreditava. Confusão tomou posse e ficou semidepressivo.

Começou a entornar cachaça. Percebeu que os vícios eram mais libertos, mas tão exigentes de pose quanto todo o resto. Perdeu a pose do vício, mas continuou viciado. Tentou conhecer alguém de outro tipo, que se interessasse, mas desistiu logo porque insistência não era seu forte...Tentou o tão falado só uma vez, viu o resultado, sorriu e, logo depois, desistiu de verdade pela primeira e última vez.

Flutuando, passou a ter cada vez mais preguiça. E parou de andar, mas lembrou dos sonhos. Começou a acreditar em tudo que sentia durante suas divagações, elas pareciam mais despertas e voláteis que qualquer coisa biológica, física, química, psicológica. Seus sonhos pareciam à única coisa real do lado de cá. Foi aqui que sentiu, sem querer ou desgostar, aflição, depois desespero, e achou que era gente. Mas ser gente sem ser pra si, mesmo que na sua cabeça, era muito confuso, e voltou a ser vulto.

Agora quase nem respirava, o oxigênio e todos aqueles gases pretensiosos só mareavam ainda mais aquela desprendida consciência de não-ser. Foi desaparecendo, fazendo diversas perguntas pra alguém que não estava lá e nunca saberia as respostas. Primeiro os pés, já inúteis fazia tempo. Pernas, cintura e barriga, todos seguiram quase que instantaneamente, corroídos por incerteza férteis e insistentes, adubadas por banalidades insossas. Quando era só pescoço e cabeça, essa última já dispensada de suas principais funções, pensou em voz alta:

To indo...pra tentar encontrar alguém, e sumiu sozinho.

2 comentários:

renato disse...

poderia ter terminado com:
sair para comprar cigarros e sumiu na fumaça da noite.

A foto do cão me lembra Itamambuca e os pactos com o demo. Boa mesmo.

Anônimo disse...

bro, não sou uma menina internética, alias nunca entrei num blog na minha vida, qto mais ficar escrevendo comentários.. mas adorei esse texto.. foi vc que escreveu?.... aplausos ass: sua irmã